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Entre guerras e polarizações, a pergunta esquecida: onde está Deus?

Entre guerras e polarizações, a pergunta esquecida: onde está Deus?
27/06/2026 2 visualizações
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Vivemos uma época de avanços tecnológicos sem precedentes e, paradoxalmente, de profundas crises humanas. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão divididos. As guerras se multiplicam, a violência se normaliza, as polarizações invadem a vida pública e até as relações familiares parecem cada vez mais frágeis. Diante desse cenário, buscamos respostas na política, na economia, na diplomacia e na tecnologia. Mas talvez estejamos esquecendo a pergunta mais importante: onde está Deus?

Essa foi a provocação que atravessou a apresentação do livro Uma ordem mundial sem Deus? A Igreja, a guerra, a paz, os direitos, do jornalista Andrea Gagliarducci. Mais do que uma análise geopolítica, a obra convida a recuperar uma dimensão frequentemente ignorada no debate contemporâneo: a dimensão espiritual da crise que vivemos.

Há muito tempo aprendemos a analisar os conflitos a partir de interesses econômicos, disputas territoriais ou estratégias militares. Tudo isso é verdadeiro, mas insuficiente. Antes de toda guerra entre povos, existe uma guerra no coração do homem. Antes de um conflito internacional, há um coração que deixou de reconhecer no outro um irmão.

É precisamente aí que a Doutrina Social da Igreja conserva toda a sua atualidade. Ela não oferece soluções técnicas para os problemas do mundo, mas recorda um princípio fundamental: não haverá verdadeira paz sem uma autêntica compreensão da dignidade da pessoa humana. E essa dignidade encontra seu fundamento último em Deus.

Quando Deus é retirado do horizonte, o homem acaba perdendo também a referência sobre si mesmo. Se não existe um Criador, quem determina o valor da vida? Se não existe uma verdade que transcenda os interesses humanos, o que impede que prevaleça a lógica do mais forte?

A história demonstra que as maiores tragédias da humanidade não nasceram apenas do ódio, mas também da pretensão de construir uma sociedade sem Deus. Sempre que o homem ocupa o lugar do Absoluto, acaba transformando outros homens em instrumentos de seus projetos.

Isso não significa defender uma religião imposta ou uma confusão entre fé e poder político. Significa reconhecer que a fé oferece ao mundo uma visão do homem que nenhuma ideologia consegue substituir. O Evangelho recorda que cada pessoa é filha de Deus, criada à sua imagem e destinada à comunhão. Quando essa verdade é esquecida, torna-se mais fácil justificar a exclusão, a violência e a indiferença.

Por isso, chama atenção a pergunta levantada por Gagliarducci: "Onde está Deus hoje?" Talvez a questão devesse ser ainda mais pessoal: onde Deus ocupa lugar em minha vida?

Vivemos cercados por respostas técnicas para quase tudo. A inteligência artificial promete resolver problemas complexos, algoritmos orientam nossas escolhas e a informação circula numa velocidade impressionante. Contudo, nenhuma tecnologia é capaz de responder às perguntas fundamentais da existência: quem somos? Para que vivemos? O que dá sentido ao sofrimento? Por que devemos amar?

Essas respostas não se encontram nas máquinas, mas no encontro com Deus.

A Doutrina Social da Igreja nasce justamente dessa convicção. Ela não separa a fé da realidade, mas mostra que toda transformação social começa pela conversão do coração. Não haverá justiça sem homens justos. Não haverá fraternidade sem pessoas reconciliadas. Não haverá paz duradoura enquanto Deus permanecer ausente das decisões humanas e da consciência de cada pessoa.

Talvez por isso uma das virtudes mais necessárias para o nosso tempo seja, como recordou o autor, a temperança. Não a moderação entendida como mediocridade, mas a capacidade de dominar as próprias paixões, de ouvir antes de responder, de dialogar sem transformar o outro em inimigo e de buscar a verdade com humildade.

A pergunta "onde está Deus?" não é apenas uma inquietação religiosa. É uma questão profundamente humana. Porque, quando Deus desaparece do horizonte, não é apenas a fé que enfraquece. Enfraquecem também a esperança, a fraternidade e o sentido da própria existência.

Em tempos de guerras e polarizações, talvez a maior urgência não seja apenas reconstruir instituições ou estabelecer novos acordos internacionais. Talvez seja reencontrar Aquele que continua sendo o fundamento da paz, da verdade e da dignidade humana.

Enquanto não recuperarmos essa dimensão transcendente, continuaremos tentando curar as feridas da humanidade sem tocar a raiz da doença. Afinal, a maior crise do nosso tempo talvez não seja política nem econômica. É, antes de tudo, uma crise de Deus — e, por consequência, uma crise do próprio homem.

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