O Calvário e a Santa Missa: uma única oferta de amor
Conheça a profunda relação entre a Cruz de Cristo e a Eucaristia a partir da obra de Fulton Sheen
A Tradição da Igreja sempre ensinou que a Santa Missa é inseparável do Calvário. O Sacrifício de Cristo na Cruz não é repetido, mas tornado sacramentalmente presente em cada celebração eucarística. Por isso, participar da Missa é entrar no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.
Essa verdade de fé foi apresentada de maneira singular por Fulton Sheen, um dos maiores comunicadores católicos do século XX, em sua obra O Calvário e a Missa. Com uma linguagem ao mesmo tempo poética e profundamente teológica, o autor conduz os fiéis a contemplarem a Santa Missa como a atualização do único Sacrifício de Cristo.
Quem foi Fulton Sheen?
Fulton John Sheen nasceu em 8 de maio de 1895, em El Paso, Illinois, nos Estados Unidos. Ordenado sacerdote aos 24 anos, destacou-se desde cedo por sua brilhante inteligência, sua capacidade de comunicação e sua profunda vida espiritual.
Seu apostolado alcançou projeção internacional através do rádio e, posteriormente, da televisão, especialmente com os programas Life is Worth Living e The Fulton Sheen Program. Contudo, sua extraordinária capacidade de comunicação era sustentada por uma intensa vida de oração, marcada, entre outras práticas, pela adoração diária ao Santíssimo Sacramento.
Além de pregador e evangelizador, Fulton Sheen foi um escritor fecundo. Entre suas obras mais conhecidas estão Vida de Cristo, Três para Casar, Rumo à Felicidade, O Primeiro Amor do Mundo e O Calvário e a Missa. Declarado Venerável pela Igreja, encontra-se atualmente em processo de beatificação.
O Calvário e a Missa: um único sacrifício
A grande intuição de Fulton Sheen consiste em mostrar que a Santa Missa é o próprio Sacrifício do Calvário tornado presente sacramentalmente. O sacerdote e a vítima são os mesmos: Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.
Nas palavras do autor:
"Representai, pois, na vossa imaginação, o Sumo Sacerdote, Cristo, saindo da sacristia do Céu para o altar do Calvário. O Calvário é a Sua Catedral; a rocha do Calvário é a pedra do altar. A Sua Missa vai começar."
Para Fulton Sheen, cada momento da celebração eucarística encontra correspondência nas últimas palavras pronunciadas por Jesus na Cruz. Embora a obra tenha sido escrita a partir do rito romano então vigente (o Missal de São Pio V), suas reflexões permanecem de grande valor espiritual para todos os fiéis.
A Confissão: "Pai, perdoai-lhes"
A Santa Missa inicia-se com o reconhecimento dos próprios pecados. Cristo, do alto da Cruz, suplica:
"Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem."
A primeira atitude diante do mistério eucarístico é deixar-se reconciliar com Deus. Somente um coração que busca a conversão pode contemplar plenamente o amor manifestado no Calvário.
O Ofertório: "Hoje estarás comigo no Paraíso"
Ao prometer o Paraíso ao bom ladrão, Jesus revela que não deseja oferecer-Se sozinho. Na Missa, o pão e o vinho representam também a oferta de nossas vidas.
Não somos meros espectadores. Somos convidados a colocar no altar nossas alegrias, sofrimentos, trabalhos, esperanças e cruzes, unindo tudo ao Sacrifício de Cristo.
O Sanctus: "Mulher, eis o teu filho"
O "Santo, Santo, Santo" proclama a santidade de Deus. Aos pés da Cruz estão Maria e o discípulo amado, imagens da Igreja reunida em torno do Senhor.
Contemplar o Calvário e participar da Missa significa aceitar o chamado universal à santidade. Em Maria, a Igreja aprende a permanecer junto da Cruz e a oferecer-se inteiramente a Deus.
A Consagração: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
No centro da Missa está a Consagração, momento em que Cristo torna presente sacramentalmente Sua entrega redentora.
O grito de Jesus na Cruz manifesta a profundidade de Seu amor e de Sua obediência ao Pai. Na Eucaristia, somos introduzidos nesse mistério de entrega total, no qual o Senhor continua a oferecer-Se pela salvação do mundo.
A Comunhão: "Tenho sede"
A sede de Jesus não é apenas física. É, sobretudo, sede das almas.
Na Comunhão, Cristo deseja unir-Se intimamente a cada fiel. Ele tem sede de nosso amor, de nossa fé e de nossa correspondência à graça. A Eucaristia é o encontro do coração humano com o Coração de Cristo.
O Envio: "Tudo está consumado"
Ao final da Missa, a Igreja proclama: Ite, missa est — "Ide, estais enviados".
Cristo consumou perfeitamente Sua obra redentora na Cruz. A nós cabe acolher essa salvação e deixá-la produzir frutos em nossa vida. Cada Missa nos envia novamente ao mundo para testemunhar o Evangelho e carregar nossa própria cruz em união com o Senhor.
O retorno ao Pai: "Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito"
A última palavra de Jesus conduz todo o mistério ao seu destino final: o Pai.
A Missa é a obra de Cristo oferecida ao Pai e, ao mesmo tempo, a nossa própria oferta unida à d'Ele. Viemos de Deus e para Deus caminhamos. Toda celebração eucarística recorda-nos essa verdade fundamental: nossa vida encontra sentido pleno quando, unidos a Cristo, nos entregamos inteiramente ao Pai.
Contemplar a Missa com novos olhos
A leitura de O Calvário e a Missa nos ajuda a redescobrir a profundidade da Eucaristia. Cada celebração é um encontro vivo com o mistério da Cruz e da Ressurreição do Senhor.
Participar da Santa Missa é estar espiritualmente aos pés do Calvário, junto de Maria e do discípulo amado, contemplando Aquele que nos amou até o fim e continua a oferecer-Se por nós no Sacramento do Altar.