O esporte e a formação integral da pessoa
Uma reflexão cristã por ocasião da Copa do Mundo de Futebol de 2026
No último dia 11 de junho, teve início a Copa do Mundo de Futebol de 2026, realizada pela primeira vez em três países: México, Estados Unidos e Canadá. Trata-se do evento esportivo mais assistido do planeta. Somente a final da edição de 2022 reuniu cerca de 1,5 bilhão de espectadores simultaneamente em todo o mundo.
Durante os dias de competição, o futebol torna-se tema constante nas conversas entre amigos, familiares e colegas de trabalho. Em muitos lugares, quando os jogos das seleções nacionais acontecem em horário comercial, empresas e instituições até adaptam suas atividades para permitir que os funcionários acompanhem as partidas. Mais do que uma competição esportiva, a Copa do Mundo constitui uma oportunidade privilegiada de convivência, lazer e comunhão fraterna.
Entretanto, a grande atenção despertada pelos eventos esportivos também nos convida a uma reflexão mais profunda: qual é o verdadeiro significado do esporte na vida humana e, particularmente, na vida cristã?
O esporte à luz da fé cristã
No início deste ano, por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o Papa Leão XIV dirigiu à Igreja uma carta intitulada A Vida em Abundância. Nela, o Santo Padre recorda que o esporte pode tornar-se uma importante escola de virtudes, uma oportunidade de construção da paz, um espaço de evangelização e também um saudável momento de recreação e descanso.
A Igreja sempre reconheceu o valor da dimensão corporal da pessoa humana. Ao longo da história, surgiram correntes de pensamento, inspiradas no antigo gnosticismo e no maniqueísmo, que consideravam o corpo e a matéria como algo intrinsecamente mau. Diante dessas ideias, a Igreja reafirmou constantemente a verdade da fé cristã: a matéria é boa, porque foi criada por Deus, e o corpo humano participa da dignidade da pessoa.
Por isso, o cuidado com a saúde, o desenvolvimento das capacidades físicas e a prática do esporte nunca foram considerados elementos secundários na vida cristã.
Uma tradição educativa na Igreja
Ao longo dos séculos, diversos santos e educadores cristãos compreenderam a importância das atividades físicas na formação integral da pessoa.
As escolas da Companhia de Jesus, inspiradas pela pedagogia de Santo Inácio de Loyola, sempre valorizaram a educação do corpo juntamente com a formação intelectual e espiritual. Da mesma forma, santos como São Filipe Néri e São João Bosco perceberam no esporte e nas brincadeiras uma extraordinária ferramenta educativa e evangelizadora.
Também grandes mestres da tradição cristã, como Hugo de São Vítor e Santo Tomás de Aquino, refletiram sobre o valor do lazer, da recreação e do cultivo equilibrado das capacidades humanas.
Essa visão encontra uma bela síntese na célebre afirmação do humanista Michel de Montaigne:
«Não educamos uma alma, nem educamos um corpo: educamos uma pessoa. Não devemos dividi-la em duas partes.»
O cuidado do corpo como expressão de caridade
A preocupação com a dimensão física não nasceu com o cristianismo; ela corresponde a uma inclinação profundamente humana. É natural reconhecer a importância de preservar a saúde e desenvolver as capacidades do corpo.
Contudo, esse cuidado não possui apenas uma dimensão individual. Também possui uma dimensão social e comunitária. Uma pessoa saudável está mais apta a servir, a trabalhar, a ajudar o próximo e a enfrentar as exigências da vida cotidiana. Além disso, a disciplina necessária para o desenvolvimento físico frequentemente favorece o crescimento de diversas outras virtudes, como a perseverança, a temperança, a fortaleza e a capacidade de superação.
Já na antiguidade, Sócrates afirmava:
«É uma vergonha para um homem envelhecer sem jamais ver a beleza e a força de que seu corpo é capaz.»
À luz da fé cristã, poderíamos acrescentar: é igualmente uma perda não colocar os dons recebidos de Deus a serviço do bem, do próximo e da própria vocação.
O corpo, Templo do Espírito Santo
São Paulo recorda aos cristãos:
«Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo?» (1Cor 6,19).
Essa afirmação oferece um fundamento ainda mais profundo para o cuidado com a saúde e para a prática equilibrada de atividades físicas. O corpo não é um simples instrumento nem um objeto de exibição; ele faz parte da pessoa criada à imagem de Deus e destinada à ressurreição.
Por isso, o esporte, vivido de maneira saudável, pode contribuir significativamente para a formação integral da pessoa, ajudando-a a crescer na disciplina, na convivência, na solidariedade e no autodomínio.
Que esta Copa do Mundo seja também uma oportunidade para redescobrirmos a importância do cuidado de nossa saúde e do cultivo equilibrado de todas as dimensões da vida humana. Que pratiquemos atividades físicas não por vaidade ou desejo de superioridade, mas como um ato de responsabilidade e de caridade para conosco e para com os outros.
E, como não poderia faltar, que possamos viver este tempo de competição esportiva com alegria, fraternidade e espírito de comunhão, torcendo pela nossa seleção e celebrando a beleza do esporte que aproxima os povos e recorda que todos somos chamados a formar uma única família humana.