Contemplativos no meio do mundo: o segredo da santidade segundo São Josemaria Escrivá
Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.
Vivemos numa sociedade marcada pelo movimento. Corremos de um compromisso para outro, dividimos nossa atenção entre inúmeras tarefas e, muitas vezes, terminamos o dia com a sensação de termos feito muito, mas vivido pouco. Em meio a esse ritmo acelerado, surge uma pergunta inevitável: é realmente possível encontrar Deus no cotidiano?
São Josemaria Escrivá responde com uma convicção que atravessa toda a sua espiritualidade: sim. E mais do que possível, esse é o caminho ordinário da santidade.
Ele escrevia:
"Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia."
Essas palavras mudam completamente nossa maneira de compreender a vida espiritual. Muitas pessoas imaginam que a contemplação pertence apenas aos mosteiros, aos grandes místicos ou àqueles que vivem afastados das preocupações do mundo. No entanto, São Josemaria recorda que Deus chama muitos dos seus filhos justamente para encontrá-Lo no escritório, na oficina, na sala de aula, na cozinha de casa, no trânsito, no cuidado dos filhos e no cumprimento fiel dos deveres cotidianos.
A contemplação não consiste em fugir do mundo, mas em aprender a reconhecer a presença de Deus dentro dele.
Nazaré: a escola da vida contemplativa
Durante trinta anos, Jesus viveu em Nazaré. Foram anos silenciosos, sem milagres públicos, sem discursos às multidões. Trabalhava, convivia com Maria e José, rezava e santificava a vida comum.
Aos olhos humanos, parecia uma existência simples. Aos olhos da fé, era a revelação de que nenhuma atividade honesta está separada de Deus.
Nazaré ensina que o trabalho não interrompe a oração; ao contrário, pode transformar-se nela.
Quando realizado por amor, o trabalho deixa de ser apenas obrigação para tornar-se encontro.
É justamente isso que distingue uma vida cristã de uma vida simplesmente correta. Não fazemos apenas coisas boas; procuramos fazê-las com Deus e para Deus.
Contemplar é amar
Muitas vezes imaginamos a contemplação como uma experiência extraordinária, reservada a poucos privilegiados. Entretanto, antes de ser um fenômeno místico, contemplar é amar.
Quem ama deseja permanecer na presença da pessoa amada. Não necessita de muitas palavras. Um olhar basta.
Também com Deus acontece assim.
A oração começa frequentemente pelas palavras, pelas súplicas e pelas ações de graças. Mas, à medida que cresce o amor, as palavras tornam-se insuficientes. O coração aprende simplesmente a permanecer diante do Senhor.
São Josemaria dizia que chega um momento em que "não se raciocina; olha-se".
É o olhar da criança que confia no Pai.
É o olhar do discípulo que encontra descanso no Mestre.
É o olhar da alma que descobre que Deus já estava presente antes mesmo de ser percebido.
O Espírito Santo forma almas contemplativas
Ninguém aprende a contemplar apenas pelo esforço pessoal.
A vida contemplativa é obra do Espírito Santo.
É Ele quem purifica o coração, ilumina a inteligência e faz nascer aquela familiaridade com Deus que transforma completamente a existência.
Quanto mais cresce a caridade, mais facilmente reconhecemos a presença de Deus nos acontecimentos aparentemente comuns.
Por isso, a contemplação não nos afasta da realidade.
Ao contrário.
Ela nos faz enxergar a realidade como Deus a vê.
Quem contempla passa a perceber que uma conversa pode ser ocasião de caridade; um sofrimento, ocasião de união com Cristo; o trabalho, um altar; e a família, um caminho de santificação.
Um desafio para o nosso tempo
Talvez o maior obstáculo à contemplação hoje não seja a falta de tempo, mas o excesso de distrações.
Vivemos constantemente conectados, porém cada vez mais incapazes de permanecer em silêncio.
O coração humano foi criado para Deus. Quando perde esse horizonte, tenta preencher o vazio com novidades, consumo, entretenimento e uma atividade incessante que nunca satisfaz plenamente.
A contemplação nasce justamente quando permitimos que Deus volte a ocupar o centro da nossa vida.
Isso exige momentos concretos de oração, participação frequente na Eucaristia, vida sacramental, leitura da Palavra e um sincero desejo de viver continuamente na presença do Senhor.
Sem esses meios, dificilmente o coração encontrará o recolhimento necessário para escutar a voz de Deus.
A santidade possível
Talvez uma das maiores contribuições de São Josemaria para a espiritualidade da Igreja tenha sido recordar que a santidade não é uma vocação extraordinária, mas o destino de todo batizado.
Não é preciso abandonar o mundo para encontrar Deus.
É preciso transformar o mundo começando pelo próprio coração.
A mesa de trabalho pode tornar-se um altar.
A rotina pode tornar-se oração.
O esforço diário pode converter-se em oferta.
A contemplação, então, deixa de ser um privilégio reservado a alguns e passa a ser a respiração normal da alma que ama.
No fundo, toda a espiritualidade de São Josemaria pode ser resumida numa única certeza: ou encontramos Deus na vida de todos os dias, ou dificilmente O encontraremos em qualquer outro lugar.
Que Nossa Senhora, mulher do silêncio e da contemplação, nos ensine a guardar Deus no coração e a descobri-Lo presente em cada instante da nossa existência. Afinal, a verdadeira santidade não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em viver extraordinariamente bem as coisas mais simples, sempre na presença de Deus.